CRÔNICAS CANINASAs divertidas histórias de um cachorro alucinado ganharam o mundo no best seller Marley e Eupor Geraldo Bittencourt (g.bittencourt@terra.com.br)
á quem diga que histórias que envolvam animais não rendem uma grande obra para adultos. O cinema está recheado de casos que, se não confirmam essa hipótese, no mínimo, dão subsídios para tal suposição. Quem mais agüenta ligar à TV aos domingos e deparar com o reprisadíssimo Lessie ou o insípido Bingo, Esperto Pra Cachorro? O livro Marley & Eu – A vida e o Amor ao Lado do pior Cão do Mundo, de John Grogan, lançado ano passado no Brasil, pela Prestígio Editorial, prova o contrário. Não é apenas a história de um cachorrinho indefeso que mais tarde tornara-se adulto. É a história de uma família normal, com filhos, amigos, trabalhos comuns, e um enérgico cachorro para chacoalhar suas relações.
O labrador Marley fora adotado ainda nos primeiros meses de vida pelos recém-casados Grogan e Jenny. Com a adoção, ela queria dar os primeiros passos para mais tarde se tornar mãe, além de curar-se do trauma por ter assassinado, por excesso d’agua, sua antiga plantinha de estimação. Grogan, por sua vez, queria ter novamente um cachorro para chamar de melhor amigo e passear ao ar livre. Das primeiras enrascadas às mais engraçadas situações que Marley expõe os seus donos, o livro torna-se mais interessante até para quem não é fã dos animaizinhos de quatro patas.
Ao longo da obra, que é divida em crônicas sobre as aventuras de Marley, o autor John Grogan tem a proeza de fazer com que cada divertida ação de Marley envolva o leitor, transformando-o, por alguns instantes, no seu próprio animal de estimação. Esse poder de identificação se torna possível na medida em que o autor explora de maneira engraçada situações que qualquer um pode se envolver. Quem nunca presenciou algum cachorro dar como cartão de boas-vindas uma bela cheirada na virilha de alguém? Ou então insistindo em morder o tornozelo de todos como se nada estivesse acontecendo? Esses eram alguns dos principais requisitos de Marley.
A estada de Marley na terra não foi mesmo à toa. O endiabrado canino foi ainda convidado para ser o cachorro de um filme. Fez aulas de adestramento - de onde foi expulso. Tomava tranqüilizantes por conta da sua fobia por trovões. Fez amigos. Fez inimigos. Enquanto isso, a família de Grogan cresceu. Jenny foi mãe três vezes, além de ter perdido um bebê prematuramente. Neste último episódio, ela, ao chegar em casa, após ter feito à curetagem, abraçou Marley, que, por sua vez, foi abraçado por Grogan. E ficaram os três, silenciosamente, chorando pelo bebê que, então, a natureza não permitira que viesse ao mundo.
O livro de John Grogan transcorre fazendo sempre um paralelo entre a vida de Marley e o desenvolvimento da família. Essa linha de escrita faz com que o leitor se afeiçoe a cada página dedicada a Marley, a família de Grogan e as relações que envolvem os dois. A cada avanço de Jenny na sua jornada como mãe, Marley está lá para mostrar seu companheirismo. Quando Grogan resolve jogar a sua posição de destaque como colunista de um jornal e mudar de emprego, é o seu fiel amigo que está lá para abraçá-lo ao retornar para casa.
Para os mais exigentes, a leitura de um livro que tem um cachorro como principal personagem pode parecer supérflua. Mas Marley & Eu não está entre os mais vendidos no mundo todo à toa. O livro de John Grogan mostra o exercício do amor altruísta, cada vez mais raro nesse mundinho de hoje, de forma singela e engraçada. E é justamente aqui que a leitura do livro se justifica.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
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